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Infelicidade não afeta diretamente a saúde da mulher

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Tristeza não é atalho para a morte. A afirmação, que bem poderia ser uma frase de conforto a quem atravessa um momento infeliz na vida, é a conclusão de um estudo realizado ao longo de dez anos no Reino Unido e publicado pela revista da área médica “The Lancet”. Ao acompanhar o quadro de saúde de um milhão de mulheres de meia-idade por uma década, a pesquisa revelou que não houve diferença entre a taxa de mortalidade daquelas que se afirmavam felizes em comparação com aquelas que se consideravam infelizes. Por isso, concluíram os pesquisadores, a ideia amplamente difundida de que felicidade traz vida longa também é infundada.

 

— Nosso extenso estudo não mostra evidências de que a felicidade, por si só, reduz a ocorrência de doenças cardíacas, cânceres ou a mortalidade em geral. Concluímos que a felicidade e a infelicidade não têm um efeito direto sobre a morte — explica um dos autores da pesquisa, o cientista Richard Peto, professor de estatística e epidemiologia da Universidade de Oxford, no Reino Unido.

A crença na relação entre esses sentimentos e a saúde, diz o pesquisador, fomenta a tendência de se culpar o doente pelo mal que ele sofre, como se ele não tivesse sido feliz o suficiente para evitar determinada doença. Peto explica que a cristalização dessa fictícia relação entre estado de espírito e saúde em nosso imaginário é uma grande confusão entre causa e efeito. Segundo ele, saúde precária pode causar infelicidade, não o contrário.

— Muitos ainda acreditam que a infelicidade pode provocar diretamente uma doença, mas eles estão simplesmente confundindo o que é a causa e o que é o efeito. O que acontece é que as pessoas doentes tendem a ser mais infelizes do que aquelas que estão bem — pondera o pesquisador.

Outra autora do estudo, Betty Liu, da Universidade de New South Wales, na Austrália, resume:

— Uma doença pode tornar uma pessoa infeliz, mas estar infeliz, por si só, não faz ninguém ficar doente.

Os cientistas envolvidos alertam, porém, que, apesar de a tristeza não afetar diretamente a saúde, pode causar danos de outras formas, principalmente se o sentimento estiver inserido num quadro clínico de depressão, o que pode levar uma pessoa ao suicídio, ao alcoolismo ou algum outro comportamento perigoso.

INVESTIGANDO O UNIVERSO FEMININO

As mulheres que participaram da pesquisa fazem parte do Million Women Study (Estudo de Um Milhão de Mulheres), um programa do Reino Unido que começou nos anos 1990. Todas responderam a questionários de autoavaliação em que tinham que definir o quão felizes se consideravam, como classificavam sua saúde e quais eram seus níveis de estresse e capacidade de relaxamento e de autocontrole. Elas também assinalaram se faziam alguma atividade para alcançar o bem-estar e se tinham alguma doença grave.

Com as autoavaliações em mãos, os pesquisadores do estudo sobre felicidade excluíram da análise principal as voluntárias com doenças crônicas, que já estavam com a saúde debilitada. Eles se debruçaram, então, sobre os dados de 719.671 mulheres, que voltariam a responder o questionário de tempos em tempos. O registro hospitalar delas também foi monitorado, de modo que os autores da pesquisa eram informados a cada vez que elas eram internadas em um hospital.

Desse grupo, 39% se disseram felizes a maior parte do tempo; 44% se consideraram geralmente felizes; e 17%, infelizes. Durante dez anos de acompanhamento, 4% delas — cerca de 30 mil — morreram de câncer, doenças isquêmicas do coração ou outros problemas de saúde. Então, veio a surpresa: a taxa de mortalidade era a mesma entre as mulheres felizes e as infelizes.

O professor Peto destaca que, das cerca de 500 mil mulheres que relataram ter boa saúde, sem histórico de infarto, câncer ou outra doença grave, uma “minoria substancial” disse se sentir infeliz. No entanto, por pelo menos uma década elas não tiveram mais propensão à morte do que aquelas que se diziam geralmente felizes.

DEFINIÇÃO DE FELICIDADE É SUBJETIVA

Para abordar o assunto de maneira simples, o psiquiatra Fernando Fernandes, pesquisador do Programa de Transtornos do Humor (Gruda) do Instituto de Psiquiatria da USP, compara a relação entre felicidade e saúde com a associação entre casamento e saúde. Ele explica que, estatisticamente, pessoas casadas são mais saudáveis do que as solteiras, mas isto acontece porque elas adotam uma rotina mais equilibrada de alimentação e sono e se expõem menos a relações sexuais perigosas, por exemplo.

— Isso quer dizer que uma pessoa doente que se casar vai ficar boa? Claro que não. Não é o simples fato de ela estar casada que vai afetar sua saúde, mas, sim, o comportamento que pessoas casadas tendem a desenvolver. O mesmo acontece com a felicidade: não se consegue ter uma boa saúde apenas porque se está feliz. Esse sentimento não é capaz de mudar o estado de saúde de alguém. É o comportamento que as pessoas felizes costumam ter que tende a ajudá-las, mas apenas indiretamente — diz o médico.

Segundo especialistas, pessoas felizes, e, portanto, mais dispostas, tendem a sair mais de casa, tomar sol e fazer exercícios, por exemplo.

Entretanto, Fernandes pondera que o estudo tem algumas fragilidades: o trabalho avaliou apenas uma população de mulheres, de uma mesma região, baseando-se em autorrelatos. Ele acha que uma pesquisa feita com homens poderia revelar dados diferentes.

— A análise de um grupo masculino poderia até levar às mesmas conclusões, mas mostraria outros aspectos. Para os homens, as doenças derivadas do abuso de álcool estão entre as dez mais incapacitantes, o que não ocorre com as mulheres. E pessoas infelizes tendem a abusar mais de drogas — diz ele.

O especialista sublinha, também, a diferença entre felicidade e otimismo. Este último, segundo ele, é muito bem-vindo para pacientes em tratamento.

— Uma pessoa pode estar com câncer e estar infeliz, mas otimista. Isto faz com que ela se engaje no tratamento, siga as orientações, vá ao hospital nos dias determinados, tome os remédios corretamente. O otimismo é mais irmão da esperança do que da felicidade — afirma Fernandes.

Além disso, o psiquiatra da USP faz um alerta importante: as pessoas não devem confundir as tristezas do dia a dia com a depressão:

— A tristeza, até certo ponto, pode nos mover a tomar atitudes para sair de uma situação desfavorável e montar estratégias para não passar por essa situação no futuro. Mas, enquanto a infelicidade é apenas um sentimento, a depressão é um quadro clínico sério. Então, se a tristeza é desmotivada, desproporcional, se causa um sofrimento diferente e dura mais do que duas semanas, é bom procurar um médico porque pode se tratar de depressão.

De O Globo

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