Futebol e ouro de Rafaela no judô despertam feminismo nas redes sociais

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Além de irritar Galvão Bueno e milhões de torcedores, o duplo zero a zero da seleção brasileira masculina de futebol acabou dando origem a um movimento inusitado no esporte: o feminismo olímpico. E o símbolo maior desse movimento é um pequeno torcedor frustrado que virou sucesso nas redes sociais.

 

Na camiseta da seleção, ele riscou o nome de Neymar. Embaixo, escreveu o de Marta, craque da seleção feminina, seguido de um coração. Em um vídeo postado no Instagram, ele diz que o time feminino é um “símbolo do feminismo no Brasil” e que Marta “merece essa camisa aqui muito mais do que o Neymar”.

O vídeo e a imagem viralizaram, acompanhados da hashtag #SaiNeymarEntraMarta, e levaram milhares de torcedores a compartilhar nas redes o orgulho do time feminino. No Google, as pesquisas pelo termo “Marta melhor que Neymar” aumentaram mais de 160% desde domingo. Na segunda-feira (8), a judoca Rafaela Silva ganhou a primeira medalha de ouro do Brasil e deu ainda mais impulso ao movimento.

Se as Olimpíadas sempre geram muitos ídolos, os Jogos do Rio vem se destacando pela abundância de heroínas, para além da turma de Marta: mesmo sem medalha, as meninas da ginástica artística, como Rebeca Andrade e Flávia Saraiva, viraram o xodó da torcida brasileira; a judoca kosovar Majlinda Kelmendi fez história ao ganhar a primeira medalha, e de ouro, para seu estreante país; a nadadora refugiada síria Yusra Mardini recebeu celebração de medalhista ao vencer apenas uma bateria; e as jogadoras egípcias de vôlei de praia Nada Meawad e Doaa Elghobashy ganharam os holofotes ao invadir o terreno do biquíni e jogar de camiseta de manga comprida e calça (Doaa usa até hijab).

“O esporte costuma ser o terreno da virilidade, um clube do Bolinha. Mas as atletas olímpicas estão dando muitos motivos para que mais mulheres assistam, conheçam e pratiquem esportes”, diz Maíra Liguori, diretora da ONG feminista Think Olga, que lançou o projeto Olga Esporte Clube, que, além de incentivar a prática esportiva por mulheres, divulga um resumo da programação e das vitórias femininas nos Jogos.

VALORIZAÇÃO PONTUAL

O coordenador da seleção feminina de futebol, Marco Aurélio Cunha, elogia uma participação maior das mulheres nas arquibancadas olímpicas, mas acredita que há apenas uma “valorização pontual” de seu time. “Vejo mais como maldade do que como homenagem riscar o nome do Neymar e escrever o da Marta”, diz. “Parece vingança e não mérito. Valorizar é falar só sobre as mulheres, sem comparação”.

E teme que a festa feminina acabe cedo. “Nos grandes eventos, elas se tornam heroínas. Depois, ninguém mais fala delas. E, se a gente perder a medalha, ainda é capaz de dizerem que foi um fracasso”.

Para Cunha, o futebol feminino precisa de políticas públicas para ultrapassar a barreira da fama olímpica e virar um esporte de massa. E o coordenador também gostaria de ver os campeonatos de mulheres transmitidos pela TV.

MACHISMO

Apesar da valorização das atletas femininas, algumas reclamam de ações machistas nos últimos dias. Eliminada da competição, a nadadora Joanna Maranhão recebeu agressões por escrito em sua fan page no Facebook, pedindo, por exemplo, que ela fosse estuprada.

Na noite de sábado (7), a nadadora húngara Katinka Hosszu, conhecida como “dama de ferro”, ganhou uma medalha de ouro e bateu recorde mundial. Mas sua vitória virou notícia quando um comentarista do canal americano NBC se referiu ao marido de Hosszu como “o homem responsável” pela conquista. No dia seguinte, o jornal “Chicago Tribune” causou revolta nas redes ao identificar Corey Cogdell Unrein, atleta medalhista no tiro, não por seu nome, mas como mulher de um jogador de futebol americano.

“O destaque feminino nas Olimpíadas é apenas um pontapé na discussão”, diz Maíra. “Não significa que o machismo no esporte vai acabar”.

Da Folha de S.Paulo

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