Na crise financeira, brasileiros vendem bens e recorrem a amigos

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Estudo da FGV mostra que, com inflação alta e queda na renda, endividamento cresce

 

A dentista Vânia Vidal Moura e o marido, o empresário Elias Corrêa de Farias, estão endividados. A recessão veio quando ambos tiveram de arcar com dívidas feitas por outros. Vânia foi avalista de um contrato de aluguel e Corrêa teve de pagar o aluguel de um salão que já havia vendido. Percorreram bancos para conseguir o total do débito e administram os financiamentos enquanto tentam manter a renda familiar:

— Tivemos que recorrer a vários bancos para conseguir pagar a dívida e vou escolhendo as contas para pagar, deixo para depois aquelas que não deixam o nome sujo, as que não cortam o serviço — conta Vânia.

As dívidas cresceram para 24% dos entrevistados pela FGV Projetos em pesquisa feita a pedido da Fecomércio-RJ, para avaliar o impacto da crise na vida dos brasileiros. E somente 15% conseguiram diminuir as dívidas. São em sua maioria débitos não planejados provocados pela dificuldade de pagar os gastos correntes, o que foi realidade para 34% dos entrevistados.

A pesquisa mostra também que muitos brasileiros tiveram de recorrer a reservas financeiras, poupanças do período de bonança, para lidar com o aumento das despesas e a queda da renda.

Iraci Gomes, que toma conta de três crianças em sua casa na Zona Norte do Rio, aboliu o cartão de crédito:

— Quando saí do emprego, cancelei o cartão.

UMA DÍVIDA PARA PAGAR A OUTRA

Ela passou a cuidar de crianças quando a firma onde trabalhava faliu e ela preferiu trabalhar em casa para não deixar a filha Ana Clara, de 10 anos, sozinha. A menina ajuda a mãe a cuidar das crianças menores.

Por trás desse cenário, está a combinação de dois fatores: a queda da renda e o aumento das despesas. Segundo a pesquisa da FGV, esses dois motivos combinados respondem por 51% dos casos de aumento de endividamento.

Um traço importante identificado na pesquisa é o perfil “bola de neve” de parte das dívidas. Segundo o estudo, o pagamento de dívidas anteriores responde por 33% dos casos de aumento de endividamento. O motivo é o segundo mais frequente, atrás apenas dos gastos correntes. Isso indica, na avaliação de Roberto Meireles, coordenador da FGV Projetos, que as pessoas estão buscando negociar mais as dívidas:

— Esse item retrata quem está pegando outra dívida, trocando uma pela outra, renegociando.

Para resolver as dívidas, o brasileiro, segundo a pesquisa, negocia, vende bens, corta gastos, contrata mais empréstimos ou simplesmente deixa a dívida caducar e usa o cartão de crédito de parentes e amigos. Mayra Ribeiro acumulou uma dívida próxima de R$ 2 mil no cartão de crédito, no camelô e na loja onde comprou um ar-condicionado. O marido Rômulo Castro perdeu o emprego:

— Esse mês não consegui pagar o lençol e as panelas que comprei no camelô.

Christian Travassos, economista da Fecomércio-RJ, diz que as perspectivas para 2017 são de recuperação, mesmo com o aumento de endividamento observado na pesquisa. A esperada queda das taxas de juros (o mercado espera que a Selic caia dos atuais 14,25% ao ano para 13,75%) e o alívio da inflação (pode recuar de 8,74% para 7,34% no fim do ano pelas projeções) poderão dar mais fôlego para o crédito no país:

— O crédito ainda pode se expandir. Existe um mercado muito expressivo.

“NÃO TEMOS O HÁBITO DE PLANEJAR”

Dívida não faz parte do vocabulário do casal formado pelo arquiteto Ronald Goulart e pelo design Júnior Grego. Goulart diz que sempre pagou tudo à vista.

— Do imóvel ao automóvel, nunca fiz uma prestação, nunca paguei menos que o total da fatura do cartão, nunca entrei no cheque especial. Tenho medo de dívida. Sou profissional liberal, nunca sei com quanto vou fechar o mês.

A analista de economia comportamental e pesquisadora da USP Carol Franceschini afirma que o brasileiro não tem renda alta e acaba não planejando o consumo e, por isso, se endividando:

— Não temos o hábito de planejar. Se está chegando o Natal, vai na loja, parcela em dez vezes e ainda acredita que é sem juros.

Roberto Meireles, coordenador da FGV Projetos e responsável pela pesquisa, afirma que o resultado não surpreende.

— O brasileiro está muito acostumado com o conceito de parcelar, que é um endividamento.

De O Globo

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