Só um em cada dez alunos está satisfeito com aulas e material escolar

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Estudo com 135 mil estudantes diz que 69% deles reprovam modelo de aprendizado

 

Encontrar um aluno que não goste de estudar, em geral, é uma tarefa simples. Por outro lado, identificar os motivos do desinteresse e promover uma mudança no sistema educacional brasileiro tem sido um dos trabalhos mais árduos dos especialistas em educação. Para detectar os problemas das unidades de ensino, uma pesquisa do programa Porvir, do Instituto Inspirare, em parceria com a Rede Conhecimento Social, divulgada nesta quinta-feira, analisou respostas de 132 mil jovens sobre sua realidade de escolar. O resultado chama atenção: de todos os participantes, 69% estão insatisfeitos com o local onde estudam, e em uma escala de 0 a 5 deram notas inferiores a 3 para ele.

Segundo o relatório “Nossa Escola em (Re)Construção”, somente 10% dos alunos estão satisfeitos com as aulas e o material pedagógico utilizado em sala. A pesquisa mostra ainda que metade dos estudantes considera a estrutura de sua escola inadequada. Entre os que responderam ao questionário, 86% são alunos de escola pública, 13% pertencem à rede privada e 1% não quis informar.

— Não é um problema só brasileiro, o modelo de escola foi pensado no início do século passado. O mundo todo mudou e esse modelo mudou muito pouco. A forma desses alunos interagirem com o mundo e o aprendizado é diferente. Estão acostumados com a linguagem digital, a aprender com a mão na massa e não só teorizando. Como os educadores de hoje são de outra geração, talvez a gente tenha mais dificuldade de redesenhar essa escola, por isso é importante envolver os alunos nesse processo — comenta Anna Penido, diretora do Instituto Inspirare.

NECESSIDADE DE PARTICIPAÇÃO

A falta de participação dos estudantes no ambiente escolar é outro aspecto abordado na pesquisa. De acordo com os dados, 72% dos alunos dizem não participar das decisões da escola. A relação com a equipe escolar e mesmo com os colegas também não é a ideal, na opinião dos jovens. Cerca 80% deles consideram que o convívio precisa melhorar.

— O aluno não se sente motivado pelo ensino. Não é surpresa que eles avaliem mal a escola. A criança e o jovem não pode decidir sozinho (como a escola será), mas é importante engajá-los no processo de ensino. Isso é feito por meio do aprendizado, desde que se tenha um currículo que faça sentido para todos— analisou Ilona Becskeházy, mestre em Educação pela PUC.

Ao longo da pesquisa, os jovens foram levados a confrontar o modelo de escola que têm e o que gostariam de ter. Nesse sentido, fica clara a predileção dos jovens por atividades práticas em detrimento de aulas expositivas e provas. Quando perguntados sobre qual o melhor método para facilitar o aprendizado, a opção mais indicada, escolhida por 36% dos estudantes, era a realização de projetos que envolvam atividades práticas ou resolução de problemas. Apesar disso, 70% dizem não ter atividades e oficinas culturais nas escolas, por exemplo.

— Ainda temos uma escola muito conservadora. O modo como as carteiras são colocadas, a maneira como a aula é organizada são algumas coisas que refletem isso. Existem vários modos de fazer as pessoas aprenderem: o professor falar e a pessoa escutar é apenas um deles. Não há uma diversificação no ensino — afirma Paloma Comparato, aluna do 3º ano do ensino médio de uma escola de São José dos Campos, que ajudou na elaboração das perguntas da pesquisa. — Outro problema é a não valorização das individualidades. Há muitos tabus na escola que não são abertos e abordados para tornar os jovens mais críticos.

Quando imaginam uma escola inovadora, os alunos quase se dividem em relação a qual deve ser o objetivo principal dessa instituição. Do total, 27% consideram que a escola inovadora dele ter como foco principal a preparação para o Enem e o vestibular. Outros 23% indicam que a prioridade deve ser a preparação para o mercado de trabalho. Eles citam ainda que o currículo deve ser flexível, mas que algumas disciplinas devem ser obrigatórias e outras eletivas. Indicam também a necessidade de uma instituição que aborde política, cidadania e direitos humanos. O uso da tecnologia é mencionado pelos jovens como imprescindível para a inovação.

— Os alunos não entendem porque nos dias de hoje ainda temos que passar conteúdo na lousa. Eles aprendem de maneira diferente— afirma Débora Dias, professora de informática educativa da Escola Municipal de ensino fundamental Almirante Ary Parreiras, em São Paulo — Ainda temos apenas uma aula por semana e eles querem mais. É uma aula muito produtiva, um momento em que eles podem criar. Trabalhamos robótica, fazemos animações, filmes de curta-metragem, tudo voltado para as questões sociais que vivemos.

Embora as críticas sejam inúmeras e os estudantes desejem uma nova cara para escola, o vínculo afetivo com a instituição fica claro quando os participantes são questionados sobre o que falariam a respeito do local onde estudam. Apesar do olhar de reprovação para diversos aspectos do ambiente educacional, a maior parte diz gostar de sua escola e acham que aprendem coisas que poderão ser úteis.

De O Globo

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