ARTIGO/Abilash de Natal

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lulihAroldo Pedrosa*

 Abilash – Conto da Amazônia, da escritora Lulih Rojanski, é a melhor e mais coerente pedida para esses dias de comemorações ao nascimento do Menino Deus. Uma pequena grande obra literária para estimular que o espírito natalino que há em nós transborde pelos cantos.

O conto amazônico é universal. Pode parecer contraditória a afirmativa mas para quem naturalmente não conhece o conteúdo da obra, a propósito do prefácio que a escritora faz ao citar o pensamento de Liev Tolstói: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. E Lulih pinta a nossa aldeia com literatura magistral em seu belo conto de natureza amazônica.

 Quando do lançamento do livro em 2010, a escritora que é avessa à entrevista, anunciou a chegada de Abilash assim:

“Apresento a vocês meu livro: Abilash – Conto da Amazônia, um pequeno filho, nascido muito tempo depois do nascimento do filho mais velho: Lugar da Chuva. Mas com a literatura é assim… passa-se tempo precioso escrevendo e tempo amargurado tentando publicar. E este momento, o de ter a nova criação nas mãos, o livro prontinho saído das máquinas que concretizam o sonho da palavra no papel, é ímpar, é singular. Pois Abilash está aí… foi publicado pela Editora Escrituras, tem 64 páginas e conta a história de um menino que renasce na Amazônia para plantar a semente da preservação e do amor à vida no coração do homem. Espero, com Abilash, reavivar a esperança no coração de todos os leitores.”

E sempre que o fim do ano chega, trazendo com a nova estação as primeiras chuvas de dezembro e enchendo de nostalgia milhares de corações deste lugar, a história do menino Abilash inevitavelmente também vem em ondas.

No evento de abertura da 2ª Feira do Livro do Amapá de 2013, recordo-me que vi da cadeira a emoção tocar o coração do governador Camilo Capiberibe ao fazer a leitura do conto à plateia que lotava o Teatro das Bacabeiras naquela noite cintilante de letras.

A prosa poética de Lulih é de tocar mesmo corações, vislumbrar esperança de uma vida nova, sobretudo em tempos difíceis como os que estamos vivendo agora.

Numa certa manhã de dezembro de um tempo bom que passou, escrevi sobre o livro de Lulih Rojanski. A impressão à obra literária saiu desse jeito:

Tem uma canção no CD de 2011 do Chico Buarque de Hollanda, parceria com João Bosco, que é simplesmente uma pérola. Sinhá, onde o compositor, na última estrofe da letra, a define como “o conto de um cantor”.

Relendo Abilash – Conto da Amazônia, a letra de Sinhá me veio por inteira à cabeça, ao sentir no conto de Lulih a antítese da obra musical do Chico (que também é escritor, convém lembrar).

Abilash é um belo poema escrito em prosa, ou para ser mais preciso – parafraseando a pérola do Chico – a canção de uma escritora. A obra, em síntese, é uma história surrealista-amazônica inspirada no renascimento de Abilash – um menino de três meses que foi resgatado das tsunamis que flagelaram o Siri Lanka, na Ásia, no final do ano de 2004.

A partir daí, navega antropofagicamente na vanguarda a escritora amapaense.

“Somente as águas do rio Amazonas assistiram naquela noite à chegada do menino. E estavam mansas como quem dorme, guardadas pelo clarão vigilante da lua sobre o rio. O menino estava nu, de olhos abertos, e do fundo de uma canoa embalada pela calmaria, fitava no céu as constelações cintilantes de dezembro.”

Até que o menino é encontrado por um pescador.

“O homem tomou a criança nos braços, com cuidado, receoso de que suas mãos habituadas aos peixes a magoassem.”

E a escritora tocando a narrativa como toca o poema o cantor.

“Levou-o por todas as casas da comunidade entranhada na floresta e a todos contou como o encontrara, brincando com as mãos, no charco do fundo da canoa. As crianças se alegraram com a novidade e fizeram planos para os primeiros e os próximos anos do recém-chegado. As mulheres lhe providenciaram panos. E os velhos se ensimesmaram: de onde terá vindo?

–Das ilhas, disse o pescador.

–Do coração da mata, disse o castanheiro.

–Do último eclipse, arriscou um pequeno sonhador.

–Da mãe da floresta, declarou a mulher que reconheceu na criança o cheiro da samaúma.

Os velhos preferiam pensar que fosse arte dos caruanas, os espíritos que habitam o fundo dos rios.”

E enquanto Abilash caminhava por terras e rios, milagres aconteciam e ensinamentos eram semeados aos povos da floresta.

O conto é como o Natal de luzes, cheio de encantos e mistérios.

Um dia algum duende ou mágico vai tirar da cartola sete notas musicais e transformar esse Menino Deus em Cinema.

Menino Deus quando tua luz se acenda
A minha voz comporá tua lenda
E por um momento haverá mais futuro do que jamais houve…

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*O articulista é produtor cultural e compositor popular              

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