Silvio Neto faz tributo aos malditos Raul Seixas e Sérgio Sampaio

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Aroldo Pedrosa

O jornalista, músico e bancário Sílvio Neto, paraibano, radicado no Amapá há mais de dez anos e que sempre toca Raul [Seixas] – ele já fez umas dezenas de shows em homenagem ao genial e inesquecível maluco-beleza da nossa canção popular. E nesta quarta-feira, 19, no Bar Rodapé não vai ser diferente. Aliás, vai ser um pouco diferente porque desta vez Sílvio vai prestar homenagem a dois malditos compositores brasileiros de uma só vez: o Raul Seixas de sempre e Sérgio Sampaio.


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São dois mitos da MPB já mortos que foram amigos e parceiros na vida e na profissão, naqueles anos de chumbo e de muita rebeldia. Sérgio Sampaio é autor do clássico “Eu quero é botar meu bloco na rua”, uma canção carnavalesca, porém, de protesto que cantou exatamente a liberdade, quando ficamos sem ela, arrancada de nós por um regime autoritário e truculento formado por militares e civis, a partir do ano de 1964. Uma ditadura que só terminou mesmo em 1989 com o restabelecimento das eleições diretas 25 anos depois.

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O capixaba Sérgio Sampaio surgiu nesse período turbulento da história do Brasil e teve vida curta – ele morreu em 1994 com apenas 47 anos de idade, vítima de uma pancreatite (veja perfil abaixo) –, mas produziu muitas canções belas e inquietantes, deixando um legado que só enriquece a MPB e que ao ouvirmos as primeiras notas de algumas de suas canções, imediatamente lembramos e começamos a cantar de tão maravilhosas e contemporâneas que são. O acervo deixado por Sérgio Sampaio passou por um bom tempo esquecido, mas foi resgatado por artistas da MPB que hoje vêm ocupando a linha de frente dela, como Zeca Baleiro, Chico César e Lenine. No dizer de Lenine, Sampaio foi um nome marginalizado, um dos “malditos” da música popular comparado a Tim Maia e ao próprio Raul Seixas.

Já o baiano criador da Sociedade Alternativa, este, embora mais jovem, viveu muito menos que Sampaio. Conheceu Paulo Coelho, que o introduziu nas drogas e fez do parceiro o principal letrista de suas composições. Raul Seixas, totalmente dependente das drogas faleceu aos 39 anos de idade. Entretanto, fez os primeiros e mais viscerais rocks brasileiros daqueles anos – ele está entre os pioneiros criadores do gênero no Brasil – e que hoje, sem dúvida, também são reconhecidos como marcos verdadeiros na história da nossa canção. “Ouro de Tolo”, “Metamorfose Ambulante”, “Mosca na Sopa”, “Gîta”, “Maluco Beleza” e “Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás” são algumas dessas obras-primas entre tantas outras.

Silvio Neto é muito fã dos compositores que escolheu para homenagear no show “O Encontro dos Malditos” e conhece bem a história deles. Foi buscar no velho baú do Raul os clássicos já citados para compor seu repertório, mas também relíquias que vêm do tempo de Raulzito e os Panteras (1968), álbum de estreia da carreira do artista baiano, quando conheceu Sérgio Sampaio e gravou logo em seguida, numa parceria com ele, o projeto de ópera-rock Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10. E outras pérolas da parceria de Raul e Sampaio que ele foi buscar feito escafandrista como “Êta vida” e “Não adianta”, com fortes críticas à vida cotidiana moderna e à política; além de sucessos do primeiro disco do Sampaio de 1973 que foi inteiramente produzido por Raul e que teve como carro chefe “Eu quero botar meu bloco na rua” (música mais tocada nas rádios brasileiras naquele ano). O repertório conta ainda com o resgate de músicas de Sampaio feito por Zeca Baleiro no disco Cruel, de 2006.

“Esse ano, Sérgio Sampaio completaria 70 se estivesse por aqui. Mas embarcou cedo no mesmo disco voador do Raul, para uma outra dimensão onde os poetas são eternos. Esse show é uma homenagem a esses dois malditos-benditos, para que as gerações de hoje jamais esqueçam que houve uma época em que no Brasil se produzia músicas de qualidade”, disse Sílvio Neto ao MZ Portal.

Enfim, tributo pra lá de especial que merece drink de vinho antigo e muito bom como as canções que vão ser servidas à mesa no Bar Rodapé na noite desta quarta-feira. E se não tiver vinho pra comemorar… Oh baby, veja lá mais uma cerveja!

Mais sobre os compositores malditos

Raul Santos Seixas (Salvador, 28 de junho de 1945   São Paulo, 21 de agosto de 1989) foi um cantor e compositor brasileiro, frequentemente considerado um dos pioneiros do rock brasileiro. Também foi produtor musical da CBS durante sua estada no Rio de Janeiro, e por vezes é chamado de “Pai do Rock Brasileiro” e “Maluco Beleza”. Sua obra musical é composta por 17 discos lançados em seus 26 anos de carreira e seu estilo musical é tradicionalmente classificado como rock e baião, e de fato conseguiu unir ambos os gêneros em músicas como “Let me Sing, Let me Sing”. Seu álbum de estreia, Raulzito e os Pantera (1968), foi produzido quando ele integrava o grupo Raulzito e os Panteras, mas só ganhou notoriedade crítica e de público com as músicas de Krig-ha, Bandolo! (1973), como “Ouro de Tolo“, “Mosca na Sopa“, “Metamorfose Ambulante“. Raul Seixas adquiriu um estilo musical que o creditou de “contestador e místico”, e isso se deve aos ideais que vindicou, como a Sociedade Alternativa apresentada em Gita (1974), influenciado por figuras como o ocultista britânico Aleister Crowley.

Sérgio Moraes Sampaio (Cachoeiro de Itapemirim, 13 de abril de 1947  Rio de Janeiro, 15 de maio de 1994) foi um cantor e compositor brasileiro. Suas composições variam por vários estilos musicais, indo do samba e choro, ao rock’n roll, blues e balada. Sobre a poética de suas composições, em que se vê elementos de Kafka e Augusto dos Anjos, que lia e apreciava, declarou num estudo Jorge Luiz do Nascimento: “A paisagem urbana em geral, e a carioca em particular, na poética de Sérgio Sampaio, possui a fúria modernista. Porém, o espelho futurista já é um retrovisor, e o que o presente reflete é a impossibilidade de assimilação de todos os índices e ícones da paisagem urbana contemporânea.”

Em 1994 ao acertar com a gravadora Baratos Afins o lançamento de um disco com músicas inéditas, mas por consequência da vida desregrada, falece de pancreatite antes de concretizar o projeto.

Serviço

Sílvio Neto: O Encontro dos Malditos – Raul Seixas e Sérgio Sampaio

Local: Bar Rodapé – Hildemar Maia com Presidente Vargas

Data: 19 de abril – quarta-feira

Início: 22h

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