Árbitros exageram na hora de advertir e aumentam número de cartões no Brasileiro

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Ao seguir orientação da CBF, juízes estão confundindo autoridade com autoritarismo

 

Existe uma tênue fronteira que separa o arbítrio da arbitrariedade. O primeiro diz respeito à capacidade de decidir, de escolher. Enquanto a segunda é o abuso, o agir sem justificativa. Rodada após rodada, nas Séries A e B do Campeonato Brasileiro, temos verificado como é fácil ultrapassar os limites do bom senso e confundir autoridade com autoritarismo. É o que tem acontecido com as arbitragens nos jogos das duas principais divisões do futebol brasileiro. Árbitros que deveriam mediar partidas cometendo excessos na hora de advertir atletas com cartões amarelos. De 2014 para 2015, em ambas as Séries, houve um aumento de 57 cartões por, supostamente, reclamações.

Em 13 de abril deste ano, a Comissão de Arbitragem da CBF publicou o ofício circular de número 17. Nele, a orientação para que os árbitros punam com maior rigor as reclamações de jogadores e técnicos. A princípio, nada mais plausível. Afinal, é inegável que atletas e treinadores costumeiramente desrespeitam as decisões dos árbitros. Diz trecho da circular: “As recorrentes e acintosas reclamações (…) contra as decisões do árbitro e de qualquer oficial da arbitragem (…) exigem adoção de medida disciplinar adequada”.

O problema, portanto, não parece estar na orientação dada aos árbitros, que é bastante razoável. Mas, sim, na forma como estes têm interpretado a recomendação e têm utilizado a circular como justificativa para exercerem suas funções com autoritarismo. Fato que tem promovido uma explosão de cartões amarelos no futebol nacional. De 273 amarelos em 2014, a Série A passou para 330. Por reclamação o salto foi de 20 para 77. Já na Série B, uma elevação de 24 cartões por reclamação para 81.

“A gente vai conversar com o juiz e fala ‘professor’ e ele já vem ‘abaixa o braço, abaixa o braço’. Até se for perguntar ‘professor, como vai sua mãe’, ele vai responder ‘abaixa o braço, abaixa o braço’. A coisa está muito robótica”, declarou Diego Souza ao fim de Fluminense 0 a 0 Sport. A queixa do meia rubro-negro é mais uma de atletas e técnicos contra decisões abusivas dos árbitros. “Não vou nem mais olhar para o árbitro. Tenho que ficar calado. Já fui expulso três vezes esse ano sem falar nada”, reclamou Lisca.

O que os árbitros parecem não compreender é que há uma clara diferença entre contestação acintosa (ostensiva, maliciosa) de uma mera tentativa de diálogo. “Por que não conversar com o árbitro normal, como todos já conversavam?”, questiona o atacante Bruno Mineiro.

Casos absurdos

As queixas dos profissionais que atuam em Pernambuco têm fundamento. Na atual edição da Série A, vários casos evidenciam como o rigor tem sido excessivo. Analisando as súmulas de alguns jogos, nota-se que os árbitros usam como justificativa para cartões a jogadores ou expulsões de membros da comissão técnica “reclamações” que vão desde um simples “foi falta, foi falta” ou “não foi nada, não foi pra cartão amarelo, não fiz nada”.

 

Vinícius Eutrópio

No jogo Corinthians x Chapecoense, o técnico da Chape, Vinícius Eutrópio, foi expulso pelo árbitro Marcelo de Lima Henrique. Em sua súmula, o juiz alegou que o treinador reclamou “com gestos (levantando e abaixando os braços) e me dizendo as seguintes palavras: ‘foi falta, foi falta’”. As imagens, entretanto, mostram que Eutrópio sequer tirou a mão dos bolsos enquanto se queixava de uma falta não assinalada.

 

Lisandro López

Em partida contra o Coritiba, o atacante do Inter Lisandro López foi expulso aos 34 minutos do segundo tempo. O argentino havia acabado de ver um cartão amarelo por falta sobre advesário. Ao se dirigir ao árbitro André Luiz de Freitas Castro, viu o segundo amarelo e o consequente vermelho. A súmula relata que o Colorado havia dito: “não foi nada, não foi para cartão amarelo. Não fiz nada, por que você fez isso?” As imagens do jogo mostram que a abordagem do jogador foi calma e sem gestos ostensivos. Mesmo assim, foi expulso.

 

Gilberto

Na quinta rodada, o árbitro Heber Roberto Lopes expulsou Gilberto, do Vasco, em jogo contra a Ponte Preta. O atacante viu dois cartões amarelos seguidos por reclamação. Ao contestar um lance, viu o primeiro. Indignado, soltou um “caramba, brincadeira!”, vendo o segundo amarelo e sendo expulso de campo. Na súmula, o árbitro ainda alegou que ele havia gesticulado, dando soco no ar. As imagens do encontro mostram que não houve qualquer tipo de gesto por parte do atacante.

De O Diário

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